Reunião com o Ministério Público Federal e Vila Bom Jesus revela queixas de poeira constante, problemas de saúde e temor de rompimento de barragem na região afetada pelos projetos Sossego e Bacaba.
Canaã dos Carajás (PA) – Moradores da Vila Bom Jesus se reuniram com representantes do Ministério Público Federal (MPF) para denunciar os impactos das atividades minerárias da Vale na região. O encontro, promovido pela Associação de Moradores, reuniu lideranças comunitárias, residentes e procuradores para discutir os efeitos ambientais e sociais provocados pelos projetos Sossego e Bacaba.
Durante a reunião, os moradores relataram problemas crônicos de poeira gerada pelas operações da mineradora. Mácia Flor, uma das moradoras, descreveu a situação como insustentável: “Aqui é terrível demais. A poeira não para. A boca não tá dormindo, a narina só andando”, afirmou, segundo transcrição do áudio. Ela relatou ter deixado a vila temporariamente por recomendação médica após exames indicarem alta presença de bactérias, e defendeu o remanejamento das famílias como solução definitiva.

“Eu desejo mesmo, como muitos aqui também, é remanejar nós daqui. Tirar daqui, porque o que eles fizerem não vai adiantar nada. Vai continuar a poluição, continuar adoecendo, morrendo os queridos”, disse Mácia.
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Outro morador, José Ribamar, conhecido como Pixiringa, reforçou que a comunidade não é contra a mineração, mas contra as irregularidades que afetam as famílias. Ele citou rachaduras em casas provocadas por explosões, a falta de incentivo à agricultura familiar e o risco crescente com a implantação do Projeto Bacaba. “Tem uma bomba preparada, que é a barragem aqui. Deus defenda ela chegar a arrebentar”, alertou, referindo-se ao temor de um desastre semelhante ao de Brumadinho.
Pixiringa destacou que a discussão sobre os impactos existe desde 2008 e cobrou um projeto de desenvolvimento para a região que inclua o remanejamento das famílias de agricultores e trabalhadores.

O procurador da República Igor da Silva Spindola explicou que o MPF já recebia representações da vila e decidiu realizar o encontro para ouvir as demandas presencialmente. “Vim fazer esse momento de escuta, registrar realmente o que cada um sofre, dar voz a essas reclamações”, afirmou.
Segundo o procurador, já existe um plano de trabalho com pesquisas técnicas nas áreas ambiental, de engenharia e antropologia para documentar os impactos de forma profissional. O objetivo é sentar à mesa com a Vale, o município e o Estado para definir responsabilidades e reparações. “Hoje é só um pontapé desse trabalho que a gente espera se desenvolver de maneira bem sucedida”, completou.

A Vila Bom Jesus, localizada próxima às operações da Vale, convive com o crescimento populacional ao mesmo tempo em que enfrenta os efeitos da expansão mineral. Os moradores esperam que o levantamento prometido pelo MPF resulte em medidas concretas, incluindo o remanejamento para áreas mais seguras e o desenvolvimento de alternativas econômicas para a comunidade.





